Segurei firme o cabo do revolver, estava gelado, quando da gaveta trancada o libertei...
Senti ainda o formato da bala... era apenas uma... Ela era cilindrica e também estava gelada; então a coloquei quase delicadamente no tambor. Tinha um leve sorriso em meus labios, e
tinha uma leve expressão louca em meu olhar, eu podia sentir cada leve vibração de tudo
que havia a minha volta...
Estava silencio, quase mortal, era como se não houvesse mais ninguém na Terra, sem pensamentos, sem idéias, só a vontade à guiar cada passo ja dado...
Encostei o cano, gelado, na tempora esquerda...
O tic-tac do relógio, tic-tac-ando como se nada houvesse ali; ele continuava incessante, insensível
no seu som calado e indiferente.
A saliva avolumando-se sob a lingua, a garganta cada instante mais seca... o suor começou a se formar na tempora oposta, um leve tremor na mão... Puxei o ar de vagar pelas narinas, o senti entrando pela traquéia, entrando nos pulmões, abrindo os bronquios, se espalhando, percorrendo orificios, e voltando de subito dicipando-se no ar fresco fora de meu corpo quente...
E o ar a minha volta fazia circulos como a me medir... ou mesmo como uma serpente, se enrolando em meu corpo para com sua furia inconfessa me sufocar e esmagar...
Fechei os olhos... o suor arrastando-se na testa, uma gota se formou, e foi se esticando, passou sorrateira sobre a tempora descoberta, dentre a entrancia da face, se escorrendo, desceu na volta do rosto, parou sob o queixo, se soltou, e caiu... numa queda quase eterna, o tic-tac se extinguiu, o ar a minha volta, a luz la fora na janela, a saliva, e a minha boca... nada mais existia...
Fiquei ali esperando, que algo ouvesse acontecido, mas eu sabia, minha mão ainda estava la, congelada, meu dedo no gatilho levemente puxado para tráz...
Fiquei ali... esperando ouvir um estouro, ou não ouvir... Mas nada vinha... o silencio se ergueu quase palpavel, como uma vóz de soprano, e o tic-tac se estinguiu de minhas razões... O ar me sufocava como se nele eu me afogasse, como se estivesse em meio a uma tempestade, em alto mar, derepente perco as forças, e vou descendo na água que comprimi e suga meu corpo, mas desperto, quando em uma pedra, ja bem próxima às profundezas, minha cabeça roça, então volto a superficie.
Minhas pernas tremem, e meu corpo todo pulsa; despenco no chão, sinto meus joelhos se chocarem contra o carpete aspero. Minha mão umida e tremula ainda segura o cabo do revolver, agora não mais frio e nem seco, e não é sangue... só suor...


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